Confoundle · a reasoning trap
O efeito nocebo
Começa a tomar um comprimido novo e, uma semana depois, as pernas doem. Foi o comprimido, é evidente. Só que as dores são comuns, e esperar por uma ajuda a encontrá-la. Num ensaio, as pessoas tomaram uma estatina durante alguns meses e um comprimido idêntico sem nada lá dentro noutros meses, sem saber qual era qual. Relataram dores musculares em 62,5 por cento dos meses com o fármaco e em 61,6 por cento dos meses com o comprimido inativo. A dor era real. Não era o fármaco que a causava. Uma taxa de efeitos adversos sem nada com que a comparar diz o quanto o sintoma é comum, não o que o fármaco faz.
The rule
Um sintoma que aparece depois de começar um fármaco não é prova de que o fármaco o causou, enquanto não se souber com que frequência o mesmo sintoma aparece em quem não toma nada.
What it looks like
É para isso que serve um grupo de controlo, e é por isso que uma taxa isolada nunca pode responder à pergunta. A dor muscular é comum. É ainda mais comum em quem já a teve antes, em quem está atento a ela e em quem recebeu um folheto onde ela vem listada. A única forma de saber o que o fármaco acrescenta é repetir os mesmos meses sem ele, que foi o que este ensaio fez.
Why it works
Esperar um efeito adverso ajuda a produzi-lo, e ser avisado para ficar atento a um faz notar sensações que de outro modo teriam passado despercebidas. É o efeito nocebo, o irmão infeliz do efeito placebo, e não é mentira nem fraqueza: a atenção muda genuinamente aquilo que um corpo assinala, e as dores são banais o suficiente para que todos tenham algumas a encontrar. A armadilha de raciocínio à volta disto é mais simples do que a psicologia. Alguém começa um fármaco, aparece um sintoma, e os dois ficam ligados, porque uma história com uma causa lá dentro é mais fácil de segurar do que uma coincidência. O número que falta é sempre o mesmo: com que frequência aparece esse sintoma em quem não tomou o fármaco? Sem ele, uma taxa de efeitos adversos não mede o fármaco de todo, mede o quanto o sintoma é comum no tipo de pessoa a quem esse fármaco é prescrito. É por isto que a ocultação importa tanto para tudo aquilo que é o paciente a relatar. A partir do momento em que alguém sabe que toma o fármaco, o que relata é em parte sobre o fármaco e em parte sobre saber que o toma, e depois as duas coisas já não se separam. O efeito é grande o suficiente para inverter conclusões: em ensaios do mesmo fármaco, as taxas de efeitos adversos medidas enquanto ninguém sabia quem tomava o quê são habitualmente muito mais baixas do que as taxas medidas depois de todos saberem. Nada disto significa que um efeito adverso relatado deva ser posto de lado. Significa que a pergunta sobre se é o fármaco se responde retirando o fármaco e voltando a pô-lo, e não contando quantas pessoas que o tomam têm o sintoma.
Fonte
See if it fools you
This page gives the answer away. The puzzle version shows you the same figures first and asks you to commit before the reveal.
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